REUNIÂO ENTRE CANDOMBLÉ E CRIMES
Sergio Amaral Silva (*)
Especialista em cultos afro estréia como autor policial com história que pode ser lida como um apelo à tolerância religiosa.
O professor titular de Sociologia da USP, Reginaldo Prandi, é um especialista em religiões afro-brasileiras, com diversos ensaios publicados a respeito, sendo um deles, Segredos guardados, de 2005.
Naquele livro, que trata do futuro do candomblé em nosso país, especialmente diante da concorrência com outros credos, Prandi cita o desconhecimento da história da religião dos orixás e de seus rituais como uma das causas do preconceito contra seus adeptos.
Para não recorrer a um conceito um pouco mais complexo como o de multiculturalismo, fiquemos com um mais simples: o de tolerância, para concluir que o Brasil ainda tem muito a evoluir nesse campo. Prova é a difícil inserção do candomblé em nossa sociedade, bastando lembrar que até recentemente a religião era perseguida pela polícia. Justamente por isso, os seguidores resolveram criar um título honorífico, chamado ogã, para distinguir os protetores e depois, os amigos e cultores da tradição dos orixás.
Reginaldo Prandi é um ogã do candomblé. E foi nessa condição que ele voltou a escrever sobre o assunto que domina, desta vez de uma forma totalmente diferente, inventando uma história de mistério e suspense ambientada em terreiros. Assim, surgiu este Morte nos búzios, que marca a estréia do autor no gênero da ficção policial.
Diferentemente de vários de seus antecessores na polícia real, o personagem criado por Prandi para apurar a autoria dos assassinatos do livro não se rende a preconceitos simplistas, embora as vítimas e as cenas dos crimes apresentem referências supostamente religiosas:
as primeiras pistas sugerem tratar-se de sacrifícios rituais, embora o candomblé não utilize seres humanos para essas práticas.
A partir daí, as principais suspeitas são de que o assassino tenha se valido de conhecimentos adquiridos para “assinar” suas mortes de forma a implicar os adeptos do culto de origem africana. Novos acontecimentos se sucedem e o detetive Tiago Paixão se vê envolvido numa trama misteriosa que
inclui interesses políticos e acaba gerando uma mobilização de outras correntes religiosas, a ponto de quase se transformar numa espécie de “guerra santa” à brasileira, fomentada pela imprensa sensacionalista e por outros criminosos que tentam copiar o “serial killer”. No centro das investigações está o terreiro dirigido por Aninha – a mãe-de-santo que, através do jogo de búzios, previu, horas antes, a morte violenta de cada uma das vítimas.
Um dos méritos dessa promissora estréia de Prandi como ficcionista policial é alertar sobre a fragilidade da propalada coexistência pacífica entre diferentes religiões no Brasil. Esse equilíbrio vem se tornando mais instável com o crescimento recente de seitas que pregam abertamente contra outras.Também contribui informativamente ao familiarizar o leitor com aspectos do cotidiano dos terreiros, até então conhecidos apenas por seus freqüentadores.
Morte nos búzios, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 34.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor.
Trecho:
“Os jornais mais sérios davam versões mais contidas Especialistas entrevistados insistiam que nenhuma religião dos dias de hoje, pelo menos no Brasil, praticava sacrifício humano. Para eles, sacrifício humano estava absolutamente fora de cogitação. Lembravam que quando acontecia um assassinato com a aparência de sacrifício religioso, não se tratava absolutamente de ato religioso, mas de obra de alguém que perdera completamente a noção de realidade. A religião da qual o crime se travestia também era vítima da farsa criminosa, garantiam os entendidos.
Outros jornais exploravam o tema relembrando histórias escabrosas em que exus e pombagiras eram invocados para sugerir ao leitor que o diabo afro-brasileiro sempre voltava a atacar de modo covarde e traiçoeiro.
A propensão de Paixão era não acreditar na possibilidade de sacrifício humano, mas não podia descartar totalmente a hipótese. As religiões proliferavam sem nenhum controle e todo dia surgiam novas igrejas, movimentos religiosos e comunidades de magia. Ninguém podia garantir que não aparecesse uma seita que acreditasse na matança de seres humanos como forma de agradar a Deus ou ao diabo. Desgraças como essa haviam surgido em anos recentes pelo mundo afora. Melhor deixar uma possibilidade em aberto.”
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