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domingo, 31 de julho de 2011

A FIILHA BASTARDA DE D.JOÃO VI

No final do século 19, na Ilha da Madeira, Eugénia Maria sofre com a doença da filha Isabel.Tuberculosa aos quinze anos e desenganada pelos médicos, a menina parece não ter forças para resistir. Então, para animá-la, a mãe resolve contar a história de sua própria família, marcada pelo mistério, já que nunca conheceu o pai.

Para isso, ela recua no tempo, até o nascimento de sua mãe, também chamada Eugénia, em 1775. Filha de Rodrigo José de Meneses, homem de grande cultura que governou as Minas Gerais entre 1780 e 1783, Eugénia de Meneses passou parte da infância no Brasil, mais precisamente em Vila Rica. Ali, foi educada por Felícia, uma mestra influenciada pelos ideais de liberdade que originaram a Inconfidência Mineira.

Atração especial para os leitores brasileiros, este romance histórico de Cristina Norton, cita personagens da Inconfidência, como Cláudio Manuel da Costa, Tiradentes e o Aleijadinho, que no entanto não chegam a participar da trama. A morte de Cláudio, a propósito, foi confirmada por pesquisas como assassinato a mando do Visconde de Barbacena. Escrevendo em 2002, a autora não se envolve na polêmica da (falsa) versão oficial de suicídio, anotando apenas, sobre o fim do poeta: “encontraram-no morto no cárcere”...

Voltando ao eixo da narrativa, Eugénia de Meneses se torna dama da corte e aia da princesa Carlota Joaquina, futura esposa de D. João. Contrariada pelo pai em sua paixão por um escritor inglês, Eugénia acaba se envolvendo com o príncipe-regente, do que resulta uma gravidez imprevista. Vítima de perseguição por parte da princesa, ela deixa a Corte e se refugia na Espanha. Ali nasce Eugénia Maria, a filha bastarda do rei, que a mãe, recolhida um convento, precisa chamar de ”afilhada”.
História e ficção

Hábil combinação entre pessoas e fatos reais e imaginados, o livro, que esteve várias semanas entre os mais vendidos em Portugal é o primeiro da autora a ser editado no Brasil, embora ela tenha publicado
pelo menos outros quatro volumes de ficção em seu país de origem.

A obra exigiu que ela realizasse levantamentos históricos bastante detalhados, o que consumiu cinco anos. Segundo a escritora, seu respeito pela História a tornaria “incapaz de escrever um romance sem fundamento”, destacando ainda a dificuldade de localizar pistas sobre a verdadeira e injustiçada Eugénia: “era como se alguém tivesse apagado seu rastro da terra”,

Cristina Norton, que nasceu na Argentina mas está radicada em Portugal há mais de trinta anos, atualmente promove cursos de literatura e escrita criativa dirigidos a educadores que os utilizam com crianças e adolescentes.

Um dos méritos de seu romance está no cuidado ao recriar os ambientes da Corte, da Colônia e dos conventos portugueses de dois séculos atrás. Revela, por exemplo, que na antiga Vila Rica havia a crença de que as rezas de nove meninas virgens, enquanto o sino da igreja tocava nove vezes, podiam ajudar num parto difícil.

Outro ponto forte, sob o ponto de vista mais humano, está na construção de personagens. Sendo verossímeis e sujeitas a paixões, elas nos ajudam a entender, através de três gerações de mulheres, a opressão e da hipocrisia que, apesar de todas as evoluções e conquistas, insistem em atingir o feminino.

Trecho:

“Vendo o pouco entusiasmo com que a filha levava o garfo a boca, Eugénia Maria lembrou-se de lhe contar a experiência da mãe com os pratos típicos de Minas Gerais, pois não havia nada melhor do que falar em receitas quando se estava à mesa.
- Sim, sim, estranhava a comida. Era muito diferente da brasileira.
A minha avó nem sonhava o que os filhos comiam. Claro que se respeitavam as suas ordens, mas a senhorita Felícia dizia-lhes que, vivendo no Brasil, deviam conhecer os costumes locais. Imagina, era como se aqui na Madeira não comêssemos peixe-espoada com banana frita... O que seria ? A minha mãe e os meus tios gostavam tanto dessa comida que a senhorita Felícia pedia que lha preparassem para eles na cozinha e esses pratos eram servidos unicamente como recompensa por bom comportamento ou boas notas. Ao contar-me essas lembranças, a tua avó sentia na boca, depois de tantos anos, o sabor do quitute feito com carne seca, feijão preto e farinha de pau, tudo cozido, que amassavam com os dedos e lambiam no fim.”


O segredo da bastarda, de Cristina Norton. Record, 336 pág,
R$ 34,90

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