CALVINO EM NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS
Reunidos em livro, textos dispersos em que o famoso escritor italiano trata
de suas viagens, de política e literatura
Sergio Amaral Silva
Apesar da sugestão do título, este Eremita em Paris não tem como cenário
predominante a capital francesa. Na verdade, mais da metade do volume, que
reúne textos autobiográficos de Ítalo Calvino (1923-1985), um dos principais
escritores italianos do século vinte, corresponde ao Diário americano
1959-1960. Esse Diário registra a correspondência enviada pelo consagrado
autor de Amores difíceis a seus colegas de trabalho numa editora italiana,
contendo impressões do viajante pelos Estados Unidos financiado por uma
bolsa de estudos da Fundação Ford.
Nessa jornada de alguns meses, acompanhado de outros três jovens escritores,
entre eles o teatrólogo espanhol Fernando Arrabal, Calvino anota suas
observações sobre várias cidades norte-americanas.Uma delas é Nova York, que
o entusiasma a ponto de afirmar, depois de três dias passados em Washington,
que “já não aguentava mais de saudade de Nova York e logo corri de volta
para cá. Sobre Chicago, o autor diz que ”é a grande cidade verdadeiramente
americana, produtiva, violenta.”
De São Francisco, destacando a colônia japonesa muito numerosa, observa que
“a cidade mista de amarelos e brancos se parece com todas as cidades do
mundo daqui a cinquenta, cem anos.”
Chegando ao sul racista, ele testemunha manifestações populares pelos
direitos civis, lideradas pelo reverendo Martin Luther King, com quem chega
a avistar-se em Montgomery, Alabama.Na introdução do volume, Esther Calvino,
viúva do escritor e responsável pela organização dos textos, salienta que o
marido estava longe de considerá-los acabados e prontos para publicação.
Segundo ela, a importância do livro é “como documento autobioigráfico e não
como prova literária”.Assim, essa espécie de auto-retrato vem somar-se a
outro projeto de memórias que o autor também deixou incompleto,
materializado em seu livro O caminho de San Giovanni.
Eremita em Paris é uma coletânea de textos desiguai, que inclui notas e
depoimentos, cartas, artigos e entrevistas. Por terem sido escritos de forma
esparsa, sem a preocupação de constituirem um volume único, por vezes contêm
repetições, como por exemplo quando o o autor se dedica a recordar fatos
ocorridos em sua infância passada na cidadezinha de San Remo.
Para se prevenir contra possíveis decepções, é recomendável que os
admiradores da obra literária de Ítalo Calvino - e que provavelmente são os
mais interessados nestes apontamentos que incluem assuntos como literatura e
política – não esperem reconhecer no novo livro a escrita rigorosa que é uma
das características marcantes do autor de Se um viajante numa noite de
inverno. Sem uma revisão final por parte do escritor, encontram-se falhas de
pontuação, excesso de abreviaturas e palavras que ele optou por manter em
inglês, o que foi respeitado pela tradutora brasileira, como símbolos da
informalidade desses registros.
Eremita em Paris, de Ítalo Calvino. Tradução de Roberta Barni. Companhia das
Letras, 264 páginas, R$ 39,50.
Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico
Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria literatura.
Trecho do Diário americano 1959-1960
“Após quatro dias de Nova York, sonho que voltei imediatamente para a
Itália. Não me lembro do motivo pelo qual voltei – por um motivo qualquer
tive vontade de voltar, uma inspiração momentânea, e eis que estou novamente
na Itália e não sei o que vim fazer aqui. Mas sinto a necessidade urgente de
voltar logo para a América. Ninguém na Itália se interessa por eu ter estado
na América, nem por eu ter voltado Sou tomado por um desespero ensandecido
por não estar na América, uma angústia pavorosa, um desejo pela América que
não está ligado a nenhuma imagem específica, mas como se eu tivesse sido
arrancado da vida. Nunca senti um desespero tão absoluto. Acordei tremendo –
dar por mim no esquálido quarto de meu primeiro hotel americano é como dar
por mim em casa.”
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