SANT'ANNA, Affonso Romano de - A cegueira e o saber
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
SANT 'ANNA, affonso ROMA
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
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