CALVINO EM NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS
Reunidos em livro, textos dispersos em que o famoso escritor italiano trata
de suas viagens, de política e literatura
Sergio Amaral Silva
Apesar da sugestão do título, este Eremita em Paris não tem como cenário
predominante a capital francesa. Na verdade, mais da metade do volume, que
reúne textos autobiográficos de Ítalo Calvino (1923-1985), um dos principais
escritores italianos do século vinte, corresponde ao Diário americano
1959-1960. Esse Diário registra a correspondência enviada pelo consagrado
autor de Amores difíceis a seus colegas de trabalho numa editora italiana,
contendo impressões do viajante pelos Estados Unidos financiado por uma
bolsa de estudos da Fundação Ford.
Nessa jornada de alguns meses, acompanhado de outros três jovens escritores,
entre eles o teatrólogo espanhol Fernando Arrabal, Calvino anota suas
observações sobre várias cidades norte-americanas.Uma delas é Nova York, que
o entusiasma a ponto de afirmar, depois de três dias passados em Washington,
que “já não aguentava mais de saudade de Nova York e logo corri de volta
para cá. Sobre Chicago, o autor diz que ”é a grande cidade verdadeiramente
americana, produtiva, violenta.”
De São Francisco, destacando a colônia japonesa muito numerosa, observa que
“a cidade mista de amarelos e brancos se parece com todas as cidades do
mundo daqui a cinquenta, cem anos.”
Chegando ao sul racista, ele testemunha manifestações populares pelos
direitos civis, lideradas pelo reverendo Martin Luther King, com quem chega
a avistar-se em Montgomery, Alabama.Na introdução do volume, Esther Calvino,
viúva do escritor e responsável pela organização dos textos, salienta que o
marido estava longe de considerá-los acabados e prontos para publicação.
Segundo ela, a importância do livro é “como documento autobioigráfico e não
como prova literária”.Assim, essa espécie de auto-retrato vem somar-se a
outro projeto de memórias que o autor também deixou incompleto,
materializado em seu livro O caminho de San Giovanni.
Eremita em Paris é uma coletânea de textos desiguai, que inclui notas e
depoimentos, cartas, artigos e entrevistas. Por terem sido escritos de forma
esparsa, sem a preocupação de constituirem um volume único, por vezes contêm
repetições, como por exemplo quando o o autor se dedica a recordar fatos
ocorridos em sua infância passada na cidadezinha de San Remo.
Para se prevenir contra possíveis decepções, é recomendável que os
admiradores da obra literária de Ítalo Calvino - e que provavelmente são os
mais interessados nestes apontamentos que incluem assuntos como literatura e
política – não esperem reconhecer no novo livro a escrita rigorosa que é uma
das características marcantes do autor de Se um viajante numa noite de
inverno. Sem uma revisão final por parte do escritor, encontram-se falhas de
pontuação, excesso de abreviaturas e palavras que ele optou por manter em
inglês, o que foi respeitado pela tradutora brasileira, como símbolos da
informalidade desses registros.
Eremita em Paris, de Ítalo Calvino. Tradução de Roberta Barni. Companhia das
Letras, 264 páginas, R$ 39,50.
Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico
Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria literatura.
Trecho do Diário americano 1959-1960
“Após quatro dias de Nova York, sonho que voltei imediatamente para a
Itália. Não me lembro do motivo pelo qual voltei – por um motivo qualquer
tive vontade de voltar, uma inspiração momentânea, e eis que estou novamente
na Itália e não sei o que vim fazer aqui. Mas sinto a necessidade urgente de
voltar logo para a América. Ninguém na Itália se interessa por eu ter estado
na América, nem por eu ter voltado Sou tomado por um desespero ensandecido
por não estar na América, uma angústia pavorosa, um desejo pela América que
não está ligado a nenhuma imagem específica, mas como se eu tivesse sido
arrancado da vida. Nunca senti um desespero tão absoluto. Acordei tremendo –
dar por mim no esquálido quarto de meu primeiro hotel americano é como dar
por mim em casa.”
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terça-feira, 30 de agosto de 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
SANT'ANNA, Affonso Romano de - A cegueira e o saber
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
SANT 'ANNA, affonso ROMA
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
SANT 'ANNA, affonso ROMA
O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER SABER ?
Affonso Romano de Sant’Anna mostra em amplo painel, sua visão crítica e lúcida da cultura contemporânea
Sergio Amaral Silva (*)
O poeta e ensaísta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tem mais de 70 livros publicados. Lançado em 2008, o volume A cegueira e o saber reúne ensaios, ou crônicas culturais, como o autor prefere chamá-los. Publicados originalmente em jornais nos sete anos anteriores, os textos tratam de cultura, arte, literatura e o mercado editorial. O título do volume foi inspirado pela hiper-visualidade de nosso tempo, em que algumas pessoas parecem cegas frente ao excesso de informações. Para Affonso, essa super-estimulação provoca uma dificuldade de ver e compreender a realidade que nos cerca. “Temos que aprender a desver, para rever, para que o ato de olhar para dentro possa significar algo”, diz o escritor.
Para exemplificar o que chama de ilusionismo do olhar, Affonso cita textos de autores como H.G. Wells ou Andersen, este na célebre história A roupa nova do imperador. E propõe que a necessária distinção entre a cegueira e o saber seja feita por instrumentos de percepção como a linguagem. Quando Affonso Romano trata de linguagem, a referência à poesia - para ele “uma fatalidade do espírito humano” - é inevitável. Fiel a sua vocação e compromisso com a palavra, ele lembra que as pessoas têm necessidade de se exprimir por metáforas. E cita o escritor Milan Kundera, que diz que a função do poeta é derrubar os muros para ver o que há atrás. Um desses muros contra os quais o poeta investe em seus ensaios é a banalização da cultura, que prejudica a decantação exigida pela poesia.
Dois ensaios do livro contam uma história que Affonso considera pedagógica para artistas que têm pressa em fazer sucesso: a de escritores que tiveram obras recusadas, como Proust que tentou em vão publicar seu Em busca do tempo perdido - tendo sido rejeitado, na editora Gallimard por André Gide – até resolver custear a publicação do primeiro volume. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário por voto de Graciliano Ramos. Scott Fitzgerald colecionava 120 cartas negando a veiculação de seus contos. O mesmo aconteceu com Wittgenstein e Tomasi di Lampedusa, entre muitos outros, de uma lista qualificada como espantosa.
Noutro texto, em que afirma que arte é transfiguração, Affonso comenta a polêmica questão da transgressão nas manifestações artísticas. Numa entrevista recente, disse que Hoje, arte não precisa mais ser transgressão, até porque tudo já foi transgredido. Há sim que construir o belo, o superior, com fragmentos do caos. “Se agressão fosse arte, qualquer bandido da esquina seria um grande artista,”concluiu.
Sobre porcos e artistas
Também bastante atual, a abertura de espaço à cultura da periferia (que não é um fenômeno exclusivamente brasileiro) pode assumir um caráter paternalista, porque o centro tende a absorver tudo. A relação entre centro e periferia, que se tornou muito ambígua e complexa, também merece a atenção do autor, para quem “precisamos caminhar para um policentrismo, com equilíbrio entre vários centros”.
Um grupo de seis crônicas das mais interessantes do volume, que chama a atenção por sua originalidade, é o Real romance de M. Haritoff, em que a narrativa de um caso de amor incorpora descobertas do escritor, sobre documentos que ajudam a recontar a história dos últimos anos do império brasileiro.
“Sobre os que se deixam enfeitiçar, se deixam levar pela ideologia dominante, que lhes dá um falso consolo ao andarem com a manada, com essa horda de sonâmbulos nesse delírio de ambulatório da modernidade”, ele lembra a alegoria de Alberto Moravia. Nela, o autor italiano reescreve episódio da Odisséia, mostrando homens que se transformam em porcos por vontade própria e não pelo efeito da mágica da bruxa Circe, como no original de Homero. Afinal, se todos são iguais, alguns são mais iguais que os outros, dizia Orwell em outra célebre parábola suína, A revolução dos bichos...
O livro se encerra com um ensaio dedicado às últimas palavras... A respeito da morte, Affonso mencionou, em entrevista, que o tempo, do qual o homem em geral só se dá conta a partir dos 30 anos, é uma dimensão fascinante: há que dialogar com sua morte, em vida. Os heróis não temiam a morte. O mesmo deve valer para o artista.
Em síntese, trata-se de 80 textos curtos que abordam com enfoque multidisciplinar e múltiplas citações, assuntos que usualmente são apresentados com uma linguagem mais insípida, na universidade. Neles, Affonso Romano usa, como peças de mosaico, inúmeras lendas, mitos e textos literários de clássicos como a Bíblia, Poe ou Saramago. Combinando essas peças com habilidade, compõe um amplo painel crítico da cultura contemporânea. Assim, convida o leitor atento a acompanhá-lo em sua reflexão lúcida e aguda sobre tópicos fundamentais do instigante tema. O livro constitui um relato escrito com autoridade de analista e talento de poeta, dessa fascinante viagem.
A cegueira e o saber, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 312 páginas, R$ 28,50.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador de cerca de 70 prêmios literários.
sábado, 6 de agosto de 2011
PRANDI, Reginaldo : Morte nos búzios
REUNIÂO ENTRE CANDOMBLÉ E CRIMES
Sergio Amaral Silva (*)
Especialista em cultos afro estréia como autor policial com história que pode ser lida como um apelo à tolerância religiosa.
O professor titular de Sociologia da USP, Reginaldo Prandi, é um especialista em religiões afro-brasileiras, com diversos ensaios publicados a respeito, sendo um deles, Segredos guardados, de 2005.
Naquele livro, que trata do futuro do candomblé em nosso país, especialmente diante da concorrência com outros credos, Prandi cita o desconhecimento da história da religião dos orixás e de seus rituais como uma das causas do preconceito contra seus adeptos.
Para não recorrer a um conceito um pouco mais complexo como o de multiculturalismo, fiquemos com um mais simples: o de tolerância, para concluir que o Brasil ainda tem muito a evoluir nesse campo. Prova é a difícil inserção do candomblé em nossa sociedade, bastando lembrar que até recentemente a religião era perseguida pela polícia. Justamente por isso, os seguidores resolveram criar um título honorífico, chamado ogã, para distinguir os protetores e depois, os amigos e cultores da tradição dos orixás.
Reginaldo Prandi é um ogã do candomblé. E foi nessa condição que ele voltou a escrever sobre o assunto que domina, desta vez de uma forma totalmente diferente, inventando uma história de mistério e suspense ambientada em terreiros. Assim, surgiu este Morte nos búzios, que marca a estréia do autor no gênero da ficção policial.
Diferentemente de vários de seus antecessores na polícia real, o personagem criado por Prandi para apurar a autoria dos assassinatos do livro não se rende a preconceitos simplistas, embora as vítimas e as cenas dos crimes apresentem referências supostamente religiosas:
as primeiras pistas sugerem tratar-se de sacrifícios rituais, embora o candomblé não utilize seres humanos para essas práticas.
A partir daí, as principais suspeitas são de que o assassino tenha se valido de conhecimentos adquiridos para “assinar” suas mortes de forma a implicar os adeptos do culto de origem africana. Novos acontecimentos se sucedem e o detetive Tiago Paixão se vê envolvido numa trama misteriosa que
inclui interesses políticos e acaba gerando uma mobilização de outras correntes religiosas, a ponto de quase se transformar numa espécie de “guerra santa” à brasileira, fomentada pela imprensa sensacionalista e por outros criminosos que tentam copiar o “serial killer”. No centro das investigações está o terreiro dirigido por Aninha – a mãe-de-santo que, através do jogo de búzios, previu, horas antes, a morte violenta de cada uma das vítimas.
Um dos méritos dessa promissora estréia de Prandi como ficcionista policial é alertar sobre a fragilidade da propalada coexistência pacífica entre diferentes religiões no Brasil. Esse equilíbrio vem se tornando mais instável com o crescimento recente de seitas que pregam abertamente contra outras.Também contribui informativamente ao familiarizar o leitor com aspectos do cotidiano dos terreiros, até então conhecidos apenas por seus freqüentadores.
Morte nos búzios, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 34.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor.
Trecho:
“Os jornais mais sérios davam versões mais contidas Especialistas entrevistados insistiam que nenhuma religião dos dias de hoje, pelo menos no Brasil, praticava sacrifício humano. Para eles, sacrifício humano estava absolutamente fora de cogitação. Lembravam que quando acontecia um assassinato com a aparência de sacrifício religioso, não se tratava absolutamente de ato religioso, mas de obra de alguém que perdera completamente a noção de realidade. A religião da qual o crime se travestia também era vítima da farsa criminosa, garantiam os entendidos.
Outros jornais exploravam o tema relembrando histórias escabrosas em que exus e pombagiras eram invocados para sugerir ao leitor que o diabo afro-brasileiro sempre voltava a atacar de modo covarde e traiçoeiro.
A propensão de Paixão era não acreditar na possibilidade de sacrifício humano, mas não podia descartar totalmente a hipótese. As religiões proliferavam sem nenhum controle e todo dia surgiam novas igrejas, movimentos religiosos e comunidades de magia. Ninguém podia garantir que não aparecesse uma seita que acreditasse na matança de seres humanos como forma de agradar a Deus ou ao diabo. Desgraças como essa haviam surgido em anos recentes pelo mundo afora. Melhor deixar uma possibilidade em aberto.”
Sergio Amaral Silva (*)
Especialista em cultos afro estréia como autor policial com história que pode ser lida como um apelo à tolerância religiosa.
O professor titular de Sociologia da USP, Reginaldo Prandi, é um especialista em religiões afro-brasileiras, com diversos ensaios publicados a respeito, sendo um deles, Segredos guardados, de 2005.
Naquele livro, que trata do futuro do candomblé em nosso país, especialmente diante da concorrência com outros credos, Prandi cita o desconhecimento da história da religião dos orixás e de seus rituais como uma das causas do preconceito contra seus adeptos.
Para não recorrer a um conceito um pouco mais complexo como o de multiculturalismo, fiquemos com um mais simples: o de tolerância, para concluir que o Brasil ainda tem muito a evoluir nesse campo. Prova é a difícil inserção do candomblé em nossa sociedade, bastando lembrar que até recentemente a religião era perseguida pela polícia. Justamente por isso, os seguidores resolveram criar um título honorífico, chamado ogã, para distinguir os protetores e depois, os amigos e cultores da tradição dos orixás.
Reginaldo Prandi é um ogã do candomblé. E foi nessa condição que ele voltou a escrever sobre o assunto que domina, desta vez de uma forma totalmente diferente, inventando uma história de mistério e suspense ambientada em terreiros. Assim, surgiu este Morte nos búzios, que marca a estréia do autor no gênero da ficção policial.
Diferentemente de vários de seus antecessores na polícia real, o personagem criado por Prandi para apurar a autoria dos assassinatos do livro não se rende a preconceitos simplistas, embora as vítimas e as cenas dos crimes apresentem referências supostamente religiosas:
as primeiras pistas sugerem tratar-se de sacrifícios rituais, embora o candomblé não utilize seres humanos para essas práticas.
A partir daí, as principais suspeitas são de que o assassino tenha se valido de conhecimentos adquiridos para “assinar” suas mortes de forma a implicar os adeptos do culto de origem africana. Novos acontecimentos se sucedem e o detetive Tiago Paixão se vê envolvido numa trama misteriosa que
inclui interesses políticos e acaba gerando uma mobilização de outras correntes religiosas, a ponto de quase se transformar numa espécie de “guerra santa” à brasileira, fomentada pela imprensa sensacionalista e por outros criminosos que tentam copiar o “serial killer”. No centro das investigações está o terreiro dirigido por Aninha – a mãe-de-santo que, através do jogo de búzios, previu, horas antes, a morte violenta de cada uma das vítimas.
Um dos méritos dessa promissora estréia de Prandi como ficcionista policial é alertar sobre a fragilidade da propalada coexistência pacífica entre diferentes religiões no Brasil. Esse equilíbrio vem se tornando mais instável com o crescimento recente de seitas que pregam abertamente contra outras.Também contribui informativamente ao familiarizar o leitor com aspectos do cotidiano dos terreiros, até então conhecidos apenas por seus freqüentadores.
Morte nos búzios, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 34.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor.
Trecho:
“Os jornais mais sérios davam versões mais contidas Especialistas entrevistados insistiam que nenhuma religião dos dias de hoje, pelo menos no Brasil, praticava sacrifício humano. Para eles, sacrifício humano estava absolutamente fora de cogitação. Lembravam que quando acontecia um assassinato com a aparência de sacrifício religioso, não se tratava absolutamente de ato religioso, mas de obra de alguém que perdera completamente a noção de realidade. A religião da qual o crime se travestia também era vítima da farsa criminosa, garantiam os entendidos.
Outros jornais exploravam o tema relembrando histórias escabrosas em que exus e pombagiras eram invocados para sugerir ao leitor que o diabo afro-brasileiro sempre voltava a atacar de modo covarde e traiçoeiro.
A propensão de Paixão era não acreditar na possibilidade de sacrifício humano, mas não podia descartar totalmente a hipótese. As religiões proliferavam sem nenhum controle e todo dia surgiam novas igrejas, movimentos religiosos e comunidades de magia. Ninguém podia garantir que não aparecesse uma seita que acreditasse na matança de seres humanos como forma de agradar a Deus ou ao diabo. Desgraças como essa haviam surgido em anos recentes pelo mundo afora. Melhor deixar uma possibilidade em aberto.”
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