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sexta-feira, 1 de julho de 2011

POESIA EM PROSA, FEITO CACOS DE UM MOSAICO

Adélia Prado lança um romance com características semelhantes às da poesia que a consagrou

(*) Sergio Amaral Silva

A escritora mineira Adélia Prado completou 70 anos de idade e 30 de carreira literária, contados da edição do volume de poemas Bagagem. Ela é bastante conhecida como poeta, considerada uma das principais vozes da poesia brasileira. Todavia, dos quatorze primeiros títulos que publicou, sete são de prosa (contos, crônicas e romances). Seu décimo quinto livro também é: o romance Quero minha mãe.

Contada em primeira pessoa, a história é a de Olímpia, que perdeu a mãe ainda na infância e é atormentada pelo temor de ficar doente, porque acha que a morte a persegue. Neste ponto é inevitável destacar um traço autobiográfico, já que a mãe de Adélia faleceu quando a menina tinha quatorze anos, ocasião em que começou a escrever versos.

Casada com Abel, Olímpia não foge a seu destino, que é o de adoecer realmente e, passada dos 60 anos, começa a pensar que a morte está próxima. (“Fiquei pensando no meu desaparecimento, no meu desvalor. Iguais, um grão de terra e eu”.) Uma de suas primeiras providências é fazer uma lista de parentes e conhecidos a quem comunicar a doença e pedir orações.

A fé é sua companheira constante durante a evolução da moléstia. (“Bajulo Deus, esta é a verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar. Como posso alçar-me com Ele grudado à cauda ?”). Aí pode-se encontrar uma marca registrada da literatura de Adélia Prado: um forte sentido de religiosidade. As referências ao catolicismo estão presentes na autora desde as mais remotas experiências literárias, como no desfecho de uma composição escolar no 3º ano primário, inspirada num trecho ouvido da professora na aula de catecismo: “Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles”.

Com voz própria

Foi depois da morte do pai que Adélia diz ter encontrado a própria fala, uma dicção literária diferente dos autores que admirava. Percebeu então que tanto fazia escrever em verso ou prosa, porque a essência era mesmo poesia e “a palavra era poderosa, podia fazer com ela o que quisesse”. A propósito, seu mais recente livro de poemas, Oráculos de maio, já tem quase sete anos.

O cotidiano doméstico da mulher nas cidadezinhas tranqüilas, que Adélia tão bem conhece, serve de pano de fundo a esta história curta, praticamente uma novela, já que não tem mais de cinqüenta páginas de texto.

A narrativa de Quero minha mãe lembra a técnica do mosaico (ou, se preferirem, o título do segundo livro em prosa de Adélia, Cacos para um vitral, de 1980): é composta de fragmentos, de recortes que se juntam com sensibilidade para mostrar a protagonista, suas recordações e seu micro-universo sob diferentes pontos de vista.

Os muitos admiradores conquistados pela autora talvez o achem curto, mas por certo não se decepcionarão com este novo livro. Nele, irão encontrar uma escritora em pleno domínio de seu ofício, falando à vontade sobre os temas que lhe são familiares, com a linguagem que caracteriza sua obra, num delicado equilíbrio entre o sagrado e o profano. Afinal, como diz uma personagem do livro, citando a máxima de um santo, “a glória de Deus é que o homem viva”. E a literatura é, certamente, um modo eficaz de driblar a morte.

Quero minha mãe, de Adélia Prado. Record, 86 pág, R$ 24,90

(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor e mora na Ilha de Santo Amaro, em Guarujá (SP)

Trecho:

“Desertei da mãe de Deus e fiquei órfã duas vezes. Quando nasceram meus filhos – que esta confissão me salve -, amamentei-os com gosto, cuidei muito da comida de todos, dei vermífugo, cálcio, vacinas, básica como um português de anedota. A alegria de quando ganhei a Singer dá a medida de meu projeto doméstico. Passava o dia na máquina, eu, de quem Martina vaticinava: quando casar, seu marido vai comer livro. Detestava me ver ‘passando folha’, queria me ver passando vassoura. Pois fui e sou boa dona de casa, dava e dou notícia de gasto de óleo e sabão. Abel nunca reclamou da minha comida, pelo contrário. Busquei minha meta, meus filhos terão bons dentes, comerão o pão com o suor do rosto, como meu pai e Abel, serão cristãos fervorosos e tementes a Deus, só muito velhinhos morrerão e irão para o céu, lá sim, lugar de demasias. Por aqui nada de excessos, como está já está bom demais.”

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