No final do século 19, na Ilha da Madeira, Eugénia Maria sofre com a doença da filha Isabel.Tuberculosa aos quinze anos e desenganada pelos médicos, a menina parece não ter forças para resistir. Então, para animá-la, a mãe resolve contar a história de sua própria família, marcada pelo mistério, já que nunca conheceu o pai.
Para isso, ela recua no tempo, até o nascimento de sua mãe, também chamada Eugénia, em 1775. Filha de Rodrigo José de Meneses, homem de grande cultura que governou as Minas Gerais entre 1780 e 1783, Eugénia de Meneses passou parte da infância no Brasil, mais precisamente em Vila Rica. Ali, foi educada por Felícia, uma mestra influenciada pelos ideais de liberdade que originaram a Inconfidência Mineira.
Atração especial para os leitores brasileiros, este romance histórico de Cristina Norton, cita personagens da Inconfidência, como Cláudio Manuel da Costa, Tiradentes e o Aleijadinho, que no entanto não chegam a participar da trama. A morte de Cláudio, a propósito, foi confirmada por pesquisas como assassinato a mando do Visconde de Barbacena. Escrevendo em 2002, a autora não se envolve na polêmica da (falsa) versão oficial de suicídio, anotando apenas, sobre o fim do poeta: “encontraram-no morto no cárcere”...
Voltando ao eixo da narrativa, Eugénia de Meneses se torna dama da corte e aia da princesa Carlota Joaquina, futura esposa de D. João. Contrariada pelo pai em sua paixão por um escritor inglês, Eugénia acaba se envolvendo com o príncipe-regente, do que resulta uma gravidez imprevista. Vítima de perseguição por parte da princesa, ela deixa a Corte e se refugia na Espanha. Ali nasce Eugénia Maria, a filha bastarda do rei, que a mãe, recolhida um convento, precisa chamar de ”afilhada”.
História e ficção
Hábil combinação entre pessoas e fatos reais e imaginados, o livro, que esteve várias semanas entre os mais vendidos em Portugal é o primeiro da autora a ser editado no Brasil, embora ela tenha publicado
pelo menos outros quatro volumes de ficção em seu país de origem.
A obra exigiu que ela realizasse levantamentos históricos bastante detalhados, o que consumiu cinco anos. Segundo a escritora, seu respeito pela História a tornaria “incapaz de escrever um romance sem fundamento”, destacando ainda a dificuldade de localizar pistas sobre a verdadeira e injustiçada Eugénia: “era como se alguém tivesse apagado seu rastro da terra”,
Cristina Norton, que nasceu na Argentina mas está radicada em Portugal há mais de trinta anos, atualmente promove cursos de literatura e escrita criativa dirigidos a educadores que os utilizam com crianças e adolescentes.
Um dos méritos de seu romance está no cuidado ao recriar os ambientes da Corte, da Colônia e dos conventos portugueses de dois séculos atrás. Revela, por exemplo, que na antiga Vila Rica havia a crença de que as rezas de nove meninas virgens, enquanto o sino da igreja tocava nove vezes, podiam ajudar num parto difícil.
Outro ponto forte, sob o ponto de vista mais humano, está na construção de personagens. Sendo verossímeis e sujeitas a paixões, elas nos ajudam a entender, através de três gerações de mulheres, a opressão e da hipocrisia que, apesar de todas as evoluções e conquistas, insistem em atingir o feminino.
Trecho:
“Vendo o pouco entusiasmo com que a filha levava o garfo a boca, Eugénia Maria lembrou-se de lhe contar a experiência da mãe com os pratos típicos de Minas Gerais, pois não havia nada melhor do que falar em receitas quando se estava à mesa.
- Sim, sim, estranhava a comida. Era muito diferente da brasileira.
A minha avó nem sonhava o que os filhos comiam. Claro que se respeitavam as suas ordens, mas a senhorita Felícia dizia-lhes que, vivendo no Brasil, deviam conhecer os costumes locais. Imagina, era como se aqui na Madeira não comêssemos peixe-espoada com banana frita... O que seria ? A minha mãe e os meus tios gostavam tanto dessa comida que a senhorita Felícia pedia que lha preparassem para eles na cozinha e esses pratos eram servidos unicamente como recompensa por bom comportamento ou boas notas. Ao contar-me essas lembranças, a tua avó sentia na boca, depois de tantos anos, o sabor do quitute feito com carne seca, feijão preto e farinha de pau, tudo cozido, que amassavam com os dedos e lambiam no fim.”
O segredo da bastarda, de Cristina Norton. Record, 336 pág,
R$ 34,90
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domingo, 31 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
POESIA EM PROSA, FEITO CACOS DE UM MOSAICO
Adélia Prado lança um romance com características semelhantes às da poesia que a consagrou
(*) Sergio Amaral Silva
A escritora mineira Adélia Prado completou 70 anos de idade e 30 de carreira literária, contados da edição do volume de poemas Bagagem. Ela é bastante conhecida como poeta, considerada uma das principais vozes da poesia brasileira. Todavia, dos quatorze primeiros títulos que publicou, sete são de prosa (contos, crônicas e romances). Seu décimo quinto livro também é: o romance Quero minha mãe.
Contada em primeira pessoa, a história é a de Olímpia, que perdeu a mãe ainda na infância e é atormentada pelo temor de ficar doente, porque acha que a morte a persegue. Neste ponto é inevitável destacar um traço autobiográfico, já que a mãe de Adélia faleceu quando a menina tinha quatorze anos, ocasião em que começou a escrever versos.
Casada com Abel, Olímpia não foge a seu destino, que é o de adoecer realmente e, passada dos 60 anos, começa a pensar que a morte está próxima. (“Fiquei pensando no meu desaparecimento, no meu desvalor. Iguais, um grão de terra e eu”.) Uma de suas primeiras providências é fazer uma lista de parentes e conhecidos a quem comunicar a doença e pedir orações.
A fé é sua companheira constante durante a evolução da moléstia. (“Bajulo Deus, esta é a verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar. Como posso alçar-me com Ele grudado à cauda ?”). Aí pode-se encontrar uma marca registrada da literatura de Adélia Prado: um forte sentido de religiosidade. As referências ao catolicismo estão presentes na autora desde as mais remotas experiências literárias, como no desfecho de uma composição escolar no 3º ano primário, inspirada num trecho ouvido da professora na aula de catecismo: “Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles”.
Com voz própria
Foi depois da morte do pai que Adélia diz ter encontrado a própria fala, uma dicção literária diferente dos autores que admirava. Percebeu então que tanto fazia escrever em verso ou prosa, porque a essência era mesmo poesia e “a palavra era poderosa, podia fazer com ela o que quisesse”. A propósito, seu mais recente livro de poemas, Oráculos de maio, já tem quase sete anos.
O cotidiano doméstico da mulher nas cidadezinhas tranqüilas, que Adélia tão bem conhece, serve de pano de fundo a esta história curta, praticamente uma novela, já que não tem mais de cinqüenta páginas de texto.
A narrativa de Quero minha mãe lembra a técnica do mosaico (ou, se preferirem, o título do segundo livro em prosa de Adélia, Cacos para um vitral, de 1980): é composta de fragmentos, de recortes que se juntam com sensibilidade para mostrar a protagonista, suas recordações e seu micro-universo sob diferentes pontos de vista.
Os muitos admiradores conquistados pela autora talvez o achem curto, mas por certo não se decepcionarão com este novo livro. Nele, irão encontrar uma escritora em pleno domínio de seu ofício, falando à vontade sobre os temas que lhe são familiares, com a linguagem que caracteriza sua obra, num delicado equilíbrio entre o sagrado e o profano. Afinal, como diz uma personagem do livro, citando a máxima de um santo, “a glória de Deus é que o homem viva”. E a literatura é, certamente, um modo eficaz de driblar a morte.
Quero minha mãe, de Adélia Prado. Record, 86 pág, R$ 24,90
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor e mora na Ilha de Santo Amaro, em Guarujá (SP)
Trecho:
“Desertei da mãe de Deus e fiquei órfã duas vezes. Quando nasceram meus filhos – que esta confissão me salve -, amamentei-os com gosto, cuidei muito da comida de todos, dei vermífugo, cálcio, vacinas, básica como um português de anedota. A alegria de quando ganhei a Singer dá a medida de meu projeto doméstico. Passava o dia na máquina, eu, de quem Martina vaticinava: quando casar, seu marido vai comer livro. Detestava me ver ‘passando folha’, queria me ver passando vassoura. Pois fui e sou boa dona de casa, dava e dou notícia de gasto de óleo e sabão. Abel nunca reclamou da minha comida, pelo contrário. Busquei minha meta, meus filhos terão bons dentes, comerão o pão com o suor do rosto, como meu pai e Abel, serão cristãos fervorosos e tementes a Deus, só muito velhinhos morrerão e irão para o céu, lá sim, lugar de demasias. Por aqui nada de excessos, como está já está bom demais.”
(*) Sergio Amaral Silva
A escritora mineira Adélia Prado completou 70 anos de idade e 30 de carreira literária, contados da edição do volume de poemas Bagagem. Ela é bastante conhecida como poeta, considerada uma das principais vozes da poesia brasileira. Todavia, dos quatorze primeiros títulos que publicou, sete são de prosa (contos, crônicas e romances). Seu décimo quinto livro também é: o romance Quero minha mãe.
Contada em primeira pessoa, a história é a de Olímpia, que perdeu a mãe ainda na infância e é atormentada pelo temor de ficar doente, porque acha que a morte a persegue. Neste ponto é inevitável destacar um traço autobiográfico, já que a mãe de Adélia faleceu quando a menina tinha quatorze anos, ocasião em que começou a escrever versos.
Casada com Abel, Olímpia não foge a seu destino, que é o de adoecer realmente e, passada dos 60 anos, começa a pensar que a morte está próxima. (“Fiquei pensando no meu desaparecimento, no meu desvalor. Iguais, um grão de terra e eu”.) Uma de suas primeiras providências é fazer uma lista de parentes e conhecidos a quem comunicar a doença e pedir orações.
A fé é sua companheira constante durante a evolução da moléstia. (“Bajulo Deus, esta é a verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar. Como posso alçar-me com Ele grudado à cauda ?”). Aí pode-se encontrar uma marca registrada da literatura de Adélia Prado: um forte sentido de religiosidade. As referências ao catolicismo estão presentes na autora desde as mais remotas experiências literárias, como no desfecho de uma composição escolar no 3º ano primário, inspirada num trecho ouvido da professora na aula de catecismo: “Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles”.
Com voz própria
Foi depois da morte do pai que Adélia diz ter encontrado a própria fala, uma dicção literária diferente dos autores que admirava. Percebeu então que tanto fazia escrever em verso ou prosa, porque a essência era mesmo poesia e “a palavra era poderosa, podia fazer com ela o que quisesse”. A propósito, seu mais recente livro de poemas, Oráculos de maio, já tem quase sete anos.
O cotidiano doméstico da mulher nas cidadezinhas tranqüilas, que Adélia tão bem conhece, serve de pano de fundo a esta história curta, praticamente uma novela, já que não tem mais de cinqüenta páginas de texto.
A narrativa de Quero minha mãe lembra a técnica do mosaico (ou, se preferirem, o título do segundo livro em prosa de Adélia, Cacos para um vitral, de 1980): é composta de fragmentos, de recortes que se juntam com sensibilidade para mostrar a protagonista, suas recordações e seu micro-universo sob diferentes pontos de vista.
Os muitos admiradores conquistados pela autora talvez o achem curto, mas por certo não se decepcionarão com este novo livro. Nele, irão encontrar uma escritora em pleno domínio de seu ofício, falando à vontade sobre os temas que lhe são familiares, com a linguagem que caracteriza sua obra, num delicado equilíbrio entre o sagrado e o profano. Afinal, como diz uma personagem do livro, citando a máxima de um santo, “a glória de Deus é que o homem viva”. E a literatura é, certamente, um modo eficaz de driblar a morte.
Quero minha mãe, de Adélia Prado. Record, 86 pág, R$ 24,90
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor e mora na Ilha de Santo Amaro, em Guarujá (SP)
Trecho:
“Desertei da mãe de Deus e fiquei órfã duas vezes. Quando nasceram meus filhos – que esta confissão me salve -, amamentei-os com gosto, cuidei muito da comida de todos, dei vermífugo, cálcio, vacinas, básica como um português de anedota. A alegria de quando ganhei a Singer dá a medida de meu projeto doméstico. Passava o dia na máquina, eu, de quem Martina vaticinava: quando casar, seu marido vai comer livro. Detestava me ver ‘passando folha’, queria me ver passando vassoura. Pois fui e sou boa dona de casa, dava e dou notícia de gasto de óleo e sabão. Abel nunca reclamou da minha comida, pelo contrário. Busquei minha meta, meus filhos terão bons dentes, comerão o pão com o suor do rosto, como meu pai e Abel, serão cristãos fervorosos e tementes a Deus, só muito velhinhos morrerão e irão para o céu, lá sim, lugar de demasias. Por aqui nada de excessos, como está já está bom demais.”
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